Statement

Aqui pretendo esclarecer dentro dos meus limites gramaticais com a forma mais compreensível possível, a minha sequência de decisões processuais junto com uma observação sobre o seu direcionamento e o resultado de determinados atos. Este texto não é cientifico nem muito menos foi revisto. Sua precisão não foi determinada e seu texto prolixo se perde e se reencontra. Em muitos casos os atos aqui descritos se definem e se alteram, sendo frutos de experiências efêmeras ou de desenvolvimentos artístico presenteados através do erro, curiosidade ou outros conhecidos motores que funcionam na fase inicial de pesquisa, e que essa mesma se torne o próprio trabalho.

Em minhas projeções de imagem sobre objetos que atingem características dentro da categoria de instalação, em trabalhos site specific e em minhas pinturas, procuro revisitar a ideia de espaço como forma de pensar e como meio para atingir e materializar reflexões.

Nas pinturas apresento distorções de espaço que se referem a um meio artificial sem determinação de um local especifico. Esse espaço apresenta em muitas vezes objetos semelhantes a janelas e portas sugerindo profundidade, criando uma paisagem fechada, quase que claustrofóbica.

A suposta parede interna da imagem tem suas superfícies preenchidas por tinta assumindo qualidades referentes a pintura e seu contexto de tradição midiática.

Desta forma, defino um meio para o observador através destes dois fatores, permaneça entre o visível reconhecimento do espaço e a sua dispersão através das linhas que se opõem a normal representação do mesmo. Essas linhas se assumem como espaçamento de superfície do objeto (pintura), e não tendem a representar diretamente uma sugestão ficcional da mesma. Se tratássemos de uma precisa construção de espaço, o foco desta obra se manifestaria na parte interna/ficcional da pintura, e não juntamente com o observador no espaço exposto. A pintura se assume por fim entre estes dois polos, somando-se uma ambivalência sobre o seu motivo inicial & prologando o momento de comunicação entre o observador e a obra de arte, tratando da comunicação com o sujeito.

Procuro também trabalhar com determinadas qualidades midiáticas, seja a cor azul dos projetores de luz sendo utilizada como fundo em uma projeção de uma pintura virtual. Existirá assim em todos os trabalhos uma auto referência.

As instalações funcionam através de decisões dentro de um jogo de formalidades definida pelo espaço exposto. O tamanho do local sugerirá decisões para que as formas sejam construidas.

Determinadas decisões funcionam dentro das tradições de pintura, e em outros sobre a inserção de um momento similar em outras mídias como vídeo, instalação e fotografia. Nestes casos, o discurso se torna mais autojustificativo ou até de maneira mais direta: interessante, de acordo com as necessidades e qualidades de cada medium.

Outro importante momento é o comportamento entre construção e gesto. Proponho a pergunta sobre a autenticidade de um gesto determinado por um corpo, e seu comportamento de acordo com a ideia básica de gesto e forma. Através disso acabo por gerar diferentes decisões através da pintura junto com a revisão destas através de uma sobreposição de camadas pintadas, que não existe com a função de corrigir um erro, mas sim para especificar momentos expostos e tematizados. Em muitos casos os chamo de pseudo-gesto.

Muitos gestos acabam por permanecer na pintura como resíduo do ato performático ocorrido durante o processo de produção, conceito que prolifero durante a análise e observação de muitas obras de arte.

Por conta deste desenvolvimento (tempo, luz e aplicação), a cor com frequência aparece em meus trabalhos não somente como tinta, mas como um palco de projeção de luz e lâmpadas instalativas, com a constante projeção e consumo de energia sobre a tela.

 

Conteúdo

Um dos fatores que determinará a forma do conteúdo é o tempo, que aqui determinaremos como uma ideia. Essa ideia junto a sua estrutura pré-existente no contexto cientifico, exerce uma constante mudança sobre a matéria através da dissipação de luz sobre um corpo, e que assim influencia uma mudança física sobre ele. Irreversível neste caso seria a tentativa de que essa matéria retorne para suas definições anteriores dentro do mesmo universo/contexto. Sendo assim, a tentativa de isolar um momento que sofre da constante alteração do tempo, apresentará sempre mesmo que com extremas semelhanças, uma diferente consistência estética do que os seus momentos antecedentes. Definindo-se assim uma das qualidades da pintura, que através de sua permanência a mudança acontece no sujeito/observador.

Por exemplo, construir uma forma com um pincel e tinta sobre um quadro e depois cobri-lo de branco e recomeçá-lo esconderá certas decisões passadas, o que não significa que elas não foram tomadas. Mesmo que não visível, elas ficarão marcadas e terão importância dentro da montagem final da obra.

Os indivíduos juntos com os diversos fatores referentes a sua história e influencias dadas pelo contexto, mudarão sua forma de percepção, e junto a isso sua forma de produção estética e interpretarão o material sempre em desenvolvimento. Um indivíduo dentro do seu contexto irá então, refletir as barreiras de definição do mesmo. Essa determinada forma de pensar irá conter uma diferente experiência estética, e acima de tudo, irá justificar a necessidade de uma imanência caótica coexistente com o produtor da mesma.

„As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo. – Wittgenstein

O conteúdo utilizado para produção de uma obra de arte, poderá variar entre diferentes formas de materialização, como por exemplo, uma reflexão sobre a estrutura do seu próprio conteúdo. Partindo desse princípio, é possível entender que a estrutura das nossas bases comunicativas de linguagem (emoções, percepção e conceptualização das capacidades de uma manifestação artística) são construídas, tornando possível a procura pela desconstrução dessas ideias e uma possível programação, junto com os novos elementos encontrados através deste processo, sugerindo também a possibilidade de compreensão de como funcionam estes ditos limites cognitivos e o desenvolvimento dos mesmos para que as percepções se alterem e se mutuem.

Assim, uma nova experiência estética pode ser definida dentro de um conceito, que não somente apresente uma forma física, mas sim que desenvolve uma nova forma de caminhar junto com o raciocínio e que sempre se refira a algo que na obra visível não estará. O caminho desse raciocínio será então considerado a nova experiência estética, que se confirma através dos nossos conceitos sensoriais, podendo assim apresentar ideias e soluções para problemas que não mesmo sabíamos que existissem dentro de nossas realidades, aceitando também a princípio o fato de que existam mais do que uma realidade.

Se um artística tomar como por exemplo um fato histórico e aplica-lo ao seu trabalho, ele se apropriara desse momento registrado e documentado como acontecimento real e concluído, e dentro do contexto artístico, esse acontecimento histórico não terá mais diretas ligações com o seu passado, e iniciaria dentro do trabalho a possibilidade da apresentação de uma nova narrativa. A forma que a obra se contextualiza se torna a nova experiência estética. E a apropriação do material que anteriormente estava somente documentado, se transforma em material artístico. Política pode se transformar em uma escultura, sem que nessa escultura, exista uma ilustração de um momento político. A estrutura racional de entendimento de uma obra, pode neste caso ser o seu desenvolvimento estético.

Neste ensaio, discutirei utilizando diferentes posições em diferentes camadas de interpretação, a necessidade de pensar sobre polaridades com a tentativa de enxergar determinados momentos entre elas. Ao mesmo tempo, é um experimento almejando o encontro congruente entre diferentes polos, assumindo assim uma nova forma entre as futuras formas de interpretação. Mantendo assim uma corrente aberta de declarações maleáveis para um futuro constantemente presente na materialização e interpretação do tempo, sendo ele somente uma tentativa de resgatar ou materializar, acima de tudo sugerir um melhor entendimento das consecutivas formas de interpretação, matrix e mudanças estéticas que se alteram mais rápido que a necessidade de descrição pode alcançar, sendo assim livre de quaisquer observações para que possam se reproduzir não havendo então uma direta necessidade de aplicação direta sobre essa produção e e a produção cientifica junto a necessidade de incorporar ambas em um único trabalho, mas talvez conecta-las com uma caráter anfíbio.

Com pintura não é diferente, a correlação de elementos integrantes as decisões do artista sobre a camada de superfície de um determinado material, representa como um todo o significado desta obra. E se determinados momentos permanecerem em aberto ou sem explicação racional especifica, seria esta, novamente uma decisão consciência de adicionar um momento sem reflexão, ou um momento sem sentido.

Acredito que quando a obra de arte significado procura, dentro do seu contexto, ela reflete um atual pensamento sobre identidade, existente e presente no agora. Arte vive em constante comunicação.

 

Sugestão

Suggestione: ativa potencialização para provocar uma tendência de associação sobre um indivíduo, através de um ato, sendo este similar a um ato passado. Não é possível que a aplicação de um pincel carregando tinta sobre uma superfície aderente não apresente correlações, até mesmo as linhas mais distantes de uma direta interpretação, apresentarão vestígios do mundo em que elas produzidas foram.

É possível então que neste cosmo uma imagem sugira uma associação com uma outra imagem, porém através desse ato, essa imagem perdera sua posterior consistência, e a imagem relacionada também perdera suas características. Significa então, que uma sugestão apresenta um enorme potencial de criação, uma sugestão de espaço pode alterar um espaço, assim como uma sugestão de uma figura não represente ambas figuras, a sugerida e a matéria que o ato produz, mas sim, uma possível nova narrativa/caminho entre esses dois polos de imagem. Uma sugestão abrirá então uma nova camada de interpretação e significado dentro de um determinado meio.

Sendo possível a inserção de conteúdo artístico a uma matéria física, funcionando esta dentro de um contexto pré-programado para o ato (white-box). Justifica-se então a necessidade da procura por uma forma que no momento ainda não tenha apresentado suas qualidades especificas. A imagem não se legitima sozinha.

 

Francisco Valenca Vaz

12.12.2019, Bremen